quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fragmentos do ambiente

Construindo o ambiente do CAPSi com João (nome fictício)


Às vezes João, 9 anos, chegava cedo pela manhã ao CAPSi, e brincava até o horário do seu grupo no fim da manhã, embora brincasse sozinho sempre esperava que alguém o acompanhasse, era esse olhar que dava algum sentido as suas brincadeiras, elas normalmente correspondiam a brincadeiras de crianças muito pequenas, ele ligava e desligava as luzes, se escondia e reaparecia atrás da almofada, e tentava insistentemente compreender os limites do que era ele e o que era o outro. João tinha poucos recursos para se integrar e para se diferenciar dos outros, João parecia perceber todas as coisas grudadas, nesse sentido, um dia João decidiu colar todos os móveis de uma das salas do CAPSi com fita adesiva, e assim fomos, a mesa se colava a cadeira que se colava a estante. Nós nos dedicamos a recriar o mundo, como ele o percebia.
Embora o corpo e as brincadeiras apresentassem menos idade, João, no auge dos seus 9 anos, já ia e voltava sozinho do serviço, tentando se cuidar como podia, embora o serviço insistisse a família nunca comparecia. João estava sempre em busca de um olhar, de um outro, as vezes ele fazia essa procura através de comportamentos agressivos, João xingava, falava palavrões, dizia que não queria ninguém por perto, fugia, tentava invadir os carros na rua, tocava insistentemente a campainha do serviço, era esse ambiente constante do CAPSi que permitia que alguém sempre estivesse lá para olhá-lo, o que o acalmava. Um dia, gritando, se trancou em uma sala, ao solicitar que ele saísse eu bati na porta, ele respondeu com a mesma batida, assim ficamos então, ele trancado para o lado de dentro e eu no lado de fora, repetíamos o som dos dedos um do outro, por uns instantes a porta foi um importante instrumento de percussão que permitia que João não precisasse de palavras para compreender que havia um outro, do outro lado, interessado em escutá-lo, aos poucos fomos mudando os ritmos, complementando as notas, até que o ritmo de um não era igual ao do outro, era complementar, ele fazia uma sequência de toques e esperava que eu fizesse a minha. João talvez não tivesse recursos para demonstrar de outro modo o quanto o mundo se tornara ameaçador, o quanto era difícil se diferenciar do outro e se relacionar sem uma porta como escudo.
Cabe dizer que para que João perceba que há um eu e um outro, será preciso muito tempo em ambiente e algumas batidas na porta, mas acredito que algo já tenha sido construído,  na saída, enquanto observávamos ele indo para casa ele se escondeu atrás de uma árvore e por alguns instantes se certificou que permaneceríamos ali, e ali estaríamos na semana seguinte quando ele voltasse, ele percebeu que é possível que haja um outro que seja constante e que possa corresponder as demandas dele.