Diário da Hericka
Uma das minhas marcantes memórias, que é a que posso ter, é de uma de nossas supervisões, em meados de 2010.
Era inverno, e muitos estavam descontentes com o trabalho e mesmo com a supervisão: alguns argumentavam que falávamos muito superficialmente, outros conseguiam expor seus casos e nem todos mostravam-se através da fala implicados da mesma maneira. Sempre, nosso pano de fundo, eram o caps, suas relações, o que deveria ser e o que em realidade, ele era (é).
Começamos aquele dia com a busca normal pelos dados: como está tudo, quem quer falar. Falaram os mesmos, dos mesmos casos de sempre. A mesma suposta superficialidade. E mais do que nunca, reclamações de como estava o caps em termos de não ser o que se propunha, um lugar de saúde mental e de promoção de saúde. A “culpa” recaía sobre os técnicos, sobre o fato de que muitas (apenas mulheres) não queriam estar ali ou sequer sabiam como tratar de crianças “normais”, que dirá de doentes e necessitadas de apoio. Os estagiários e extensionistas, por sua vez, sendo cobrados para atenderem a essa demanda de saber num lócus de não-saber; neles era depositada toda a confiança e a desconfiança.
Meninas e meninos de 20 anos, em algum momento deixariam de aceitar isso. Até que enfim esse dia chegou numa tarde fria de inverno.
Depois de um clara demostração de desinteresse pela supervisão que emergiu no grupo através do Edu e do Luismar, que estavam no note e nem davam bola pra super(ficial)visão que estávamos tendo, foi a minha vez de perguntar, mais uma vez, o que eles, todos, esperavam. Já sabíamos de todas aquelas queixas, enfim, aquela era e é a nossa realidade, a realidade do país, do SUS, da reforma psiquiátrica: nem tudo, ou quase nada, acontece como deve ser. O que faríamos? Sentaríamos toda terça para reclamar? Estudar? O quê?
Pedi que todos pensassem por um momento e dissessem como achavam que deveria ser um caps, especialmente infantil, num mundo ideal onde tudo fosse possível. Muitos disseram que devia ser um lugar de saúde, com pessoas preparadas, alegre, equipado. Palavras e sentimentos surgiram. Lindo de ser coordenador nessa hora.
Lá pelas tantas surge a frase que jamais esqueço, que partiu de um membro mas que fala pelo nosso grupo (é assim que eu trabalho: somos um grupo operativo que estuda e avalia nossas atividades e nossa existência enquanto grupo). O Edu diz que, nesse mundo ideal, sequer devia existir um caps, sequer deviam existir motivos para existirem caps.
Ali eu descobri que sim, todos estávamos com medo. Mas todos sabíamos o que fazer.